Quando nada mais importa e o medo de fugir me atormenta. Talvez tão mais que o medo de voltar atrás e se perder em um passado sem volta. Sem explicação e com confusão demais pra uma cabeça de cachos soltos que despencam devagar do décimo primeiro andar de um prédio em louca sintonia operária.
E onde está o sentido disso tudo se não nas palmas das mãos vazias de qualquer rumo, de qualquer amor, de qualquer coisa que traga às noites de sábado uma alegria de final de semana.
E de toda dor da terra que parece se transferir para as incertezas de uma melodia rouca. Melodia cantada por qualquer vizinho que berra por atenção, enquanto fuma seu cigarro silencioso na janela todas as manhãs no mesmo horário. Me observa com um sorriso de canto de olho enquanto tento por em ordem os cabelos de noites caídas na loucura dos sonhos. Cabelos que perderam a calma e tentam ser o que não eram. No que erram de não ser o que a todos são.
De não entender porque ainda escrevo se nada vai mudar. Se nada vai continuar, porque tudo muda. E tudo se contradiz na contramão dos rumos mal tomados, das decisões corridas, dos amores largados, das esperanças se despedaçando.
Quando tudo isso acabar e o jogo não fizer mais sentido, talvez eu entenda um pouco mais. Entenda que tudo foi o devaneio de um cigarro na janela enquanto observava a vizinha com seu coque arrumado, pronto para mais um dia de trabalho.