domingo, 23 de outubro de 2011

Cores dos verões

Foi só o tempo de colocarmos as coisas no quarto e voltarmos: chuva. Era ela. Nem forte demais pra nos fazer desistir, nem fraca demais pra nos encorajar. Era só assim, duvidosa. Voltamos. Óculos, celulares, dinheiros. Tudo de mais simbólico e secundário ficou. Nós partimos.

Todo o protetor solar foi se perdendo pelo caminho, assim como as janelas que se fechavam e as roupas que eram recolhidas rapidamente pelos varais a fora. Toda a água vinha. Com força, mas não intimidadora. Parecia mais bronca brava de mãe que quer mostrar a coisa certa e não se vingar pelo erro. E a coisa certa era deixar tudo que nos entristecia ali. Indo embora com a chuva. Deixar chover fora e dentro.

E com ele, tudo parecia melhor. O meu sorriso na cara branca com as bochechas rosadas do verão permanecia. O medo da gripe ou da bronca que levaríamos ao voltar pra casa ficou guardado na mala junto com as roupas secas que nos esperavam.

Tudo por um dia de verão que se transformou aos poucos em tempestade e não mudou nossos planos. É que ele me mostrou que teremos sempre vários caminhos. E uma só escolha. O medo pode ficar pra depois.

E assim fomos, eu e papai, apresentar a iluminada cidade ao nosso visitante paranaense, que não se importou em tomar um banho de chuva e acompanhar essa descoberta entre nossos desejos. Os desejos por mais banhos de chuvas e menos inquietações, em peitos agoniados por respostas brandas de mais amor pra depois.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Last night

Quando nada mais importa e o medo de fugir me atormenta. Talvez tão mais que o medo de voltar atrás e se perder em um passado sem volta. Sem explicação e com confusão demais pra uma cabeça de cachos soltos que despencam devagar do décimo primeiro andar de um prédio em louca sintonia operária.

E onde está o sentido disso tudo se não nas palmas das mãos vazias de qualquer rumo, de qualquer amor, de qualquer coisa que traga às noites de sábado uma alegria de final de semana.

E de toda dor da terra que parece se transferir para as incertezas de uma melodia rouca. Melodia cantada por qualquer vizinho que berra por atenção, enquanto fuma seu cigarro silencioso na janela todas as manhãs no mesmo horário. Me observa com um sorriso de canto de olho enquanto tento por em ordem os cabelos de noites caídas na loucura dos sonhos. Cabelos que perderam a calma e tentam ser o que não eram. No que erram de não ser o que a todos são.

De não entender porque ainda escrevo se nada vai mudar. Se nada vai continuar, porque tudo muda. E tudo se contradiz na contramão dos rumos mal tomados, das decisões corridas, dos amores largados, das esperanças se despedaçando.

Quando tudo isso acabar e o jogo não fizer mais sentido, talvez eu entenda um pouco mais. Entenda que tudo foi o devaneio de um cigarro na janela enquanto observava a vizinha com seu coque arrumado, pronto para mais um dia de trabalho.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Afinal,

eram as promessas de um futuro bom e muito amor pro final. Pro final da noite, quando todas as discussões já haviam sido sanadas. Quando eu já não via mais teus olhos por estarem dentro dos meus há tempos. Ah, se eu pudesse me atrever. Me arriscar e deixar que os pés da cama falassem por nós.

Alinhar sonhos e sonhar, amor. Como eu adoro qualquer sentido que uma vírgula pode tirar de vidas inteiras. Me tirar a vida inteira pra tentar entender, de fora, o que acontece aqui, assim, tão quieto. Quieto na nossa solidão que não soube nos abandonar. Só soube nos jogar longes pra que pudéssemos jogar com ela sempre.

Enquanto ouço no velho rádio um voz nostálgica cantando qualquer coisa que não me lembra nada, me desmembro por entre as janelas e tento imaginar o que te faria ir tão longe. Mais uma vez, nada me vem a cabeça.

Só as velhas canções que dividíamos em uma janela – do MSN, talvez. De todo cabelo branco que te surge na cabeça e de cada responsabilidade a que os dias se somam. Mas, no final das contas, todo aniversário vai valer a pena e todos os amores perdidos vão fazer algum sentido. Talvez.

domingo, 3 de julho de 2011

Perdendo horas

Dos cantos que eu carregava no peito vazio de qualquer certeza, dos cantos que eu nunca estive. Dos meus medos que te pareciam tão vagos e das tardes assim chuvosas. Era assim que eu te queria. Nesse meu jeito de te ter tão estranho. Das conversas demoradas enquanto a água corria no chuveiro e a gente se esquecia do mundo.

Enquanto travesseiros se transformavam em canções pros nossos olhos que se perdiam na escuridão do quarto e o sol se punha. Essas palavras, assim, sem muita coisa, assim carregadas de muito tempo sem te ter. Do muito que te trouxe nós dois. Do mundo a que se somavam todas as coisas que nunca mudavam. E a gente continuava a acreditar.

A acreditar na gente. Assim perdidos, assim calmos (eu, menos), assim. Assim tudo errado, que pesava tanto nas horas claras de tudo que eu ouvia. Nas horas que eu não ouvia nada e só sabia doer. Doer por não poder fazer nada e aceitar sempre tudo.

Pelas repetições de palavras tão minhas e tão distantes que eu não entendo. Que eu mesma nunca me entendi, só me estendi entre os teus dedos e me desdobrei sobre o seu caos. Por tudo. Por tudo que eu nunca escrevi e nunca tive vontade. Das aulas perdidas pensando no teu peito farto de ser você, de ser eu. E você. De ser eu assim cansada no teu peito farto de tanta dor.

De sermos nós dois tão pequenos. E incontroláveis. Pra não nos perdermos.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Vermelho

Queria escrever no teu corpo. Escrever com meu batom vermelho todas as histórias de amor pra que você não se esquecesse. Pra que você não me perdesse. Escrever todas minhas teorias de amor falidas, enquanto você discorre sobre a natureza dos sonhos. Dos sonhos que já foram nossos, dos dias que nunca tivemos.

E os rumos que nunca saíram das rimas.

As rimas que nunca nos rumaram a lugar nenhum.

Já passava das duas e parecia não haver nada demais. Nada demais na solidão do meu braço que passeava pela cama. E lembrava do teu sorriso me dizendo que viria. Aquele sorriso que sempre me fazia promessas. Me fazia prometer. Prometer tudo que eu só tenho porque te deixei. Me sorria pra levar o que ainda restava de mim assim longe.

sábado, 4 de junho de 2011

Dos dias sem tua calma

Olho pro relógio e sinto sua falta. Em cada coisa errada, cochilo em filme ou arremesso sem destino. Nessas coisas bobas. Nas coisas que fazíamos juntos – poucas, por sinal. Nas que nunca fizemos e não me entristece. Ou nos almoços em família e apresentações erradas.

Nessas coisas que você me ensinou. Na vida de boa moça que eu nunca levei. Nas horas corridas vazias te esperando no sofá. Na casa sempre vazia, te procuro. Acho que ainda espero o interfone tocar enquanto durmo. Sabe, pra um desejo de boa noite e um beijo na testa. Ou um daqueles teus abraços que eram eternos.

E o porque dessas palavras. Elas, assim tão vazias. Que nunca se tornaram reais e nem deveriam. Elas eram lindas assim. São lindas assim. Talvez a realidade tire o encanto das coisas, das horas que não passam sem ti.

Talvez eu perca meu tempo. Ou esses textos que te escrevo pra nunca enviar só ocupem mais um espaço do computador com a intenção de saírem da cabeça. Espaço da minha vida que preciso retomar e me faz falta. E essa tristeza que se soma aos dias de muito trabalho parecia irrisória perto de toda saudade. Ah, como sinto.

Sinto demais por mim. São essas coisas que a gente faz na vida e quer voltar atrás. Acaba voltando. Muitas vezes, até. Pode ser que seja medo. Pode ser que seja uma idéia. Pode ser que não seja. E essa última é sempre minha preferida.

É sempre a mais presente. Tudo por não ser. Tudo por deixar levar. Só quero que me desculpe pelo que eu não te trouxe. Pelo o que eu não consegui fazer. Tenha certeza que isso dói bem mais em mim do que em você.

“Eu quero que você me leve do seu jeito e do seu modo”

segunda-feira, 24 de maio de 2010

"Igual a qualquer um"

Era uma pequenez tão sórdida que se moldava em seu ser. Era quase imperceptível, mas ela se cansara de tudo, de mundo. Cansara de sempre ser culpada/oculpada por tudo.

Queria o mundo em suas mãos, e o coração no mundo. Nem esperava reconhecimento, na verdade. Só um amor pequeno no final.

Eram ideias complicadas, saudades aplicadas.

Nunca soube verdadeiramente do seu lugar. Procurou sempre por onde esteve, mas nunca teve muita certeza de nada. Sua mente cansada, questionamentos tão gastos que já não diziam nada.

Via as bonecas de porcelana com os lábios rosados com certa inveja. Elas estavam na janela a observar a paisagem, enquanto ela fazia parte do que acontecia.

De um mundo que não parava, de um sombrio que não passava, de um arrepio que se sucedia

Ela queria toda aquela calma. Ela queria a alegria dos dias frívolos/inúteis/tristes.

Queria ser como todas as outras, mas pulou a janela. Correu para um mundo que a pertencia, mas que agora a deixava em dúvida. Um mundo insano, que não estava preparado para coisas pequenas.



*Igual a qualquer um - Leoni /Por Raphael Moraes